Desvios da norma padrão na dublagem

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Este tópico foi aberto para abordar discussões a respeito de desvios da norma padrão nas traduções de produções dubladas. Como estudante de Letras, percebo alguns casos que chamam a atenção do ponto de vista gramatical. Há alguns dias, ao assistir à novela mexicana "Presente de Amor", uma personagem dublada pela Jéssica Marina falou "O documento onde consta...". Pela norma-padrão, o mais adequado seria "em que consta" ou "no qual consta", já que o pronome relativo “onde” é tradicionalmente associado a lugares físicos.

Além disso, também noto com frequência uma certa oscilação no uso dos pronomes demonstrativos, especialmente na distinção entre “este/esse” e “isto/isso”, que nem sempre é respeitada nas falas. Sei que a dublagem prioriza naturalidade e fluidez nos diálogos, mas creio que determinadas escolhas linguísticas necessitam de um olhar mais cuidadoso por parte de quem está dentro do processo da dublagem. Ao consumir dublagens feitas há 20 ou 30 anos, noto que havia uma "preocupação" maior com a gramática do português brasileiro.

Quero saber de vocês: já repararam em outros casos assim? Isso incomoda ou passa despercebido no geral?
(Este post foi modificado pela última vez em: 28-03-2026, 19:03 por Josue7.)
Pra Começar se Diz Ponto de Vista e Não Ponto de Visto
Eu acho que a dublagem tem que refletir o português como ele é falado; "documento onde consta" é extremamente comum e, se a sua definição de "normal" incluir o uso comum, é normal também - ou pelo menos normalizado.

Claro que isso não significa que 'menas' ou 'pobrema' de repente seja 'ok' de colocar no texto porque muita gente diz assim, mas existe uma diferença óbvia - "documento onde consta" você poderia ouvir até numa assembléia ou num tribunal, já algo como 'menas' ou 'pobrema' carrega um estigma diferente relacionado à pobreza e baixa escolarização, por exemplo, e isso importa.

Acho que é importante que a dublagem use a norma padrão em momentos das produções que, contextualmente, pedem isso - se faz sentido para o personagem ter um vocabulário que se preocupe com algo como a norma padrão; um advogado, um professor de línguas, um acadêmico... ou então em documentários científicos e etc.
True love will find you in the end.
(28-03-2026, 16:56 )Josue7 Escreveu: Este tópico foi aberto para abordar discussões a respeito de desvios da norma padrão nas traduções de produções dubladas. Como estudante de Letras, percebo alguns casos que chamam a atenção do ponto de visto gramatical. Há alguns dias, ao assistir à novela mexicana "Presente de Amor", uma personagem dublada pela Jéssica Marina falou "O documento onde consta...". Pela norma-padrão, o mais adequado seria "em que consta" ou "no qual consta", já que o pronome relativo “onde” é tradicionalmente associado a lugares físicos.

Além disso, também noto com frequência uma certa oscilação no uso dos pronomes demonstrativos, especialmente na distinção entre “este/esse” e “isto/isso”, que nem sempre é respeitada nas falas. Sei que a dublagem prioriza naturalidade e fluidez nos diálogos, mas creio que determinadas escolhas linguísticas necessitam de um olhar mais cuidadoso por parte de quem está dentro do processo da dublagem. Ao consumir dublagens feitas há 20 ou 30 anos, noto que havia uma "preocupação" maior com a gramática do português brasileiro.

Quero saber de vocês: já repararam em outros casos assim? Isso incomoda ou passa despercebido no geral?

Já vi coisa ainda pior. Em "Vivo ou Morto - Um Mistério Knives Out" um personagem diz, no original, “You’ll tell him? Contraction of the simple future tense, meaning you haven’t yet” e traduziram pra “Vai falar? Contração do tempo futuro simples, significando que o senhor ainda não falou”. O problema é que isso ignora completamente o conceito de “contração” e “futuro simples”. Não há qualquer contração em "vai falar", e "futuro simples" sequer é um termo comum pra classificar tempo verbal na nossa língua. Isso é muito básico, qualquer um que trabalhe com a língua deveria pesquisar o mínimo necessário pra não cometer uma gafe dessas.

Mas algo que tem me incomodado muito nas traduções atuais é o excesso de “OK”. Sempre que aparece um OK, é mantido. Há uma incapacidade de variar o texto, e isso faz soar MUITO artificial. Apesar de OK ser comum, o ideal seria um “tá bom”, “tá bem”, “tá legal”, “beleza”, que soam muito mais naturais.

Tem tradutores ótimos no mercado que estudam bem o próprio ofício, uma pena que são pouquíssimos. Uma pena também que é um mercado que só por saber inglês e ser dublador já acham que estão prontos pra traduzir. O mesmo pros diretores musicais que, por serem cantores e saberem inglês, acham que são bons adaptando música pro português. 

Sobre “este/esse” e “isto/isso”, na fala já está em desuso... Naturalmente os dubladores mesmo já não usam, caso não seja uma produção datada, por não ser comum na fala.
(Este post foi modificado pela última vez em: 28-03-2026, 17:43 por Akuma.)
(28-03-2026, 17:42 )Akuma Escreveu:
(28-03-2026, 16:56 )Josue7 Escreveu: Este tópico foi aberto para abordar discussões a respeito de desvios da norma padrão nas traduções de produções dubladas. Como estudante de Letras, percebo alguns casos que chamam a atenção do ponto de visto gramatical. Há alguns dias, ao assistir à novela mexicana "Presente de Amor", uma personagem dublada pela Jéssica Marina falou "O documento onde consta...". Pela norma-padrão, o mais adequado seria "em que consta" ou "no qual consta", já que o pronome relativo “onde” é tradicionalmente associado a lugares físicos.

Além disso, também noto com frequência uma certa oscilação no uso dos pronomes demonstrativos, especialmente na distinção entre “este/esse” e “isto/isso”, que nem sempre é respeitada nas falas. Sei que a dublagem prioriza naturalidade e fluidez nos diálogos, mas creio que determinadas escolhas linguísticas necessitam de um olhar mais cuidadoso por parte de quem está dentro do processo da dublagem. Ao consumir dublagens feitas há 20 ou 30 anos, noto que havia uma "preocupação" maior com a gramática do português brasileiro.

Quero saber de vocês: já repararam em outros casos assim? Isso incomoda ou passa despercebido no geral?

Já vi coisa ainda pior. Em "Vivo ou Morto - Um Mistério Knives Out" um personagem diz, no original, “You’ll tell him? Contraction of the simple future tense, meaning you haven’t yet” e traduziram pra “Vai falar? Contração do tempo futuro simples, significando que o senhor ainda não falou”. O problema é que isso ignora completamente o conceito de “contração” e “futuro simples”. Não há qualquer contração em "vai falar", e "futuro simples" sequer é um termo comum pra classificar tempo verbal na nossa língua. Isso é muito básico, qualquer um que trabalhe com a língua deveria pesquisar o mínimo necessário pra não cometer uma gafe dessas.

Mas algo que tem me incomodado muito nas traduções atuais é o excesso de “OK”. Sempre que aparece um OK, é mantido. Há uma incapacidade de variar o texto, e isso faz soar MUITO artificial. Apesar de OK ser comum, o ideal seria um “tá bom”, “tá bem”, “tá legal”, “beleza”, que soam muito mais naturais.

Tem tradutores ótimos no mercado que estudam bem o próprio ofício, uma pena que são pouquíssimos. Uma pena também que é um mercado que só por saber inglês e ser dublador já acham que estão prontos pra traduzir. O mesmo pros diretores musicais que, por serem cantores e saberem inglês, acham que são bons adaptando música pro português. 

Sobre “este/esse” e “isto/isso”, na fala já está em desuso... Naturalmente os dubladores mesmo já não usam, caso não seja uma produção datada, por não ser comum na fala.

Mas este/esse e isto/isso foram substituídas por outras palavras?
É preciso saber viver! Smile
(28-03-2026, 20:33 )Duke de Saturno Escreveu: Mas este/esse e isto/isso foram substituídas por outras palavras?
Acho que ele se refere ao fato da diferença entre essas variações das duas palavras ser a proximidade do objeto à você.
Por exemplo, se você quiser distinguir entre uma caneca que você está segurando e a que o seu amigo está usando, você poderia dizer "Essa caneca é boa, mas esta sua é maior".

O mesmo vale pra isso/isto - "Isso aqui, isto ali".

Me lembrei da cena do Megamente em que o personagem do Persy (o diretor da prisão) pega o relógio que o Metroman teria supostamente mandado pro Megamente pra tripudiar, e diz "Vou ficar com isto", enquanto no original ele fala "I think I'll keep it".

Como o objeto estava na mão dele, e no original o personagem fala "I'll keep it", a norma padrão provavelmente ditaria que a tradução seria "Vou ficar com isso", ou, melhor ainda, simplesmente "Vou ficar com ele" que soa mais natural.

Acho que esse exemplo saltou pra mim porque o Persy coloca a ênfase bem no "ISTO", e como eu sabia dessa regrinha do português sempre achei estranho.

Adoraria trabalhar com tradução, mas a IA acho que vai aposentar a maioria dos tradutores... tradução é uma das coisas que a IA, pelo menos atualmente, melhor faz.
True love will find you in the end.
(Este post foi modificado pela última vez em: 28-03-2026, 20:47 por Bruna'.)
(28-03-2026, 20:42 )Bruna Escreveu: Adoraria trabalhar com tradução, mas a IA acho que vai aposentar a maioria dos tradutores... tradução é uma das coisas que a IA, pelo menos atualmente, melhor faz.
Vc n fala isso da melhor área da dublagem

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